Passageiro do fim do dia Passageiro do fim do dia

“Conforta acreditar que o passado é um inimigo que derrotamos de uma vez para sempre, que cada minuto é uma formiga que esmagamos com o pé em nosso avanço implacável. Ao contrário, minha sensação é de que o passado respira todo o tempo às minhas costas, anda sempre no meu encalço e, se acelero o passo, ele também aumenta o ritmo de sua marcha, disposto a me tragar de uma vez na sua corrente.”

Leia o artigo de Ricardo Russano no amálgama, sobre o autor deste texto lindo – O passado vivo: ensaio sobre Rubens Figueiredo.

Imagem: Rookie (Photos by Eleanor; collages by Ben Giles).

something else, something more something else, something more

The universe is always speaking to us. … Sending us little messages, causing coincidences and serendipities, reminding us to stop, to look around, to believe in something else, something more.
— Nancy Thayer

Obs: Serendipity é uma palavra intraduzível em português, embora alguns lingüistas proponham o termo “Serendipidade” (uma palavra tão horrível que é preferível usar a original). “Serendipity” significa mais ou menos uma coisa maravilhosa que ocorre por acaso… é usada para definir o momento em que se encontra algo precioso quando se está procurando por outra coisa (ou algo assim – a palavra já foi considerada uma das mais difíceis de ser traduzidas a partir do inglês).

Via psychedelic-tribe e Polifonias

Desenhando Palavras Desenhando Palavras

Para Cris Lisbôa, “pensar no papel” é pulsão de vida que inspira e expira, através dos signos da linguagem, novas invenções de si mesmo.

Ela nos instiga, com sua poesia e representações imagéticas, a sentir mais intensamente o cotidiano, e a buscar de volta os nossos sonhos. E ainda, criou um curso de escrita criativa lindo, chamado “Go, Writers”, no qual compartilha toda esta sua especial “leveza do ser” e da arte de escrever.

“Tempo, tempo mano velho. Envelhecer tem sido uma epifania. Uma boniteza, uma calma, uma preguiça de urgências, corridas, descompassos, mapas. Compreende-se candura, desapego, o valor de um não e as tardes chuvosas em que falta luz. Alargam-se as estantes, o coração esparrama um pouco pelas frestras das cicatrizes. Estas, se acomodam melhor. Procura-se menos. Mas ainda é possível sair sem grana e voltar bêbado, deixar o coração em casa e volver apaixonado. Envelhecer não cansa, expande, apavora, enaltece. E cada um de nós invariavelmente se transforma exatamente no que é. ” Cris Lisboa

“Frases grifadas em livros significam suspiros, mudanças imediatas de ponto de vista, sonhos novos, sombra na estrada. Respeito quem não ousa macular páginas pero a mi, me encanta.”

“Escreva sobre o que te dá medo, sobre o que te dá vergonha, sobre o que você ama. Escreva sem julgar, escreva sobre os outros. Escute conversas alheias, mesmo se as pessoas te parecerem estranhas. Ande de ônibus e de metrô e observe tudo. Lide com pessoas de diferentes profissões e idades. Não fique cercado por pessoas que tem a sua idade e fazem a mesma coisa que você. Aliás, fuja delas.” Pedro Almodóvar

“Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.”

Antonio Cícero

“Antes de começar a escrever você precisa dançar na chuva”.

“Tudo, aqui, imenso. * cartaz do muso Felipe Morozini.”

“Escrevo. E pronto. Escrevo porque preciso preciso porque estou tonto. Ninguém tem nada com isso. Escrevo porque amanhece. E as estrelas lá no céu Lembram letras no papel
Quando o poema me anoitece. A aranha tece teias. O peixe beija e morde o que vê. Eu escrevo apenas. Tem que ter por quê?” Paulo Leminski

“Que tudo seja sempre novo para os meus velhos olhos. Amém.”

“E, se enlouquecer, se apaixone.”

Noite de sexta, feriado e, como diria Quintana: “Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho.”

“Tenha medo de quem tem só medo. Se afaste de quem tem apenas coragem. Ambos não tem história nenhuma pra contar.”

“Bebo ilusões em taças e desaconselho recomeços, abandonos e samba a dois. O frio corta os lábios e o sangue que escorre tem gosto de argentinos pirulitos gigantes. Lambo. Teclo devagar usando somente a ponta dos dedos. Desisto de mentir. E abro a caixa de Pandora. Só pra ter o que fazer.” Cris Lisbôa

“Hoje, diante da página em branco podemos fazer um único pedido:”

Leiam a coluna de Cris Lisbôa na Noize. Mais doses de inpirações aqui.

“unless it comes unasked out of your heart and your mind and your mouth and your gut, don’t do it.” “unless it comes unasked out of your heart and your mind and your mouth and your gut, don’t do it.”

Reencontrar Bukowski é sempre oscilar visceralmente, entre a tristeza e a alegria, né?

Na minhas divagações sem rumo pela Web, achei essa breve e perspicaz análise, feita por Ivan Pinheiro Machado, sobre este poeta que ultrapassa as fronteiras de seu tempo:

Bukowski conquistou a admiração dos jovens de várias gerações; daqueles que são jovens há muito tempo e daqueles que são jovens recentemente. Esta permanência no coração dos leitores se deve a uma obra descarnada, sobre a qual paira a irresistível aura de transgressão. Há malucos que se tornam santos com o passar do tempo como Van Gogh, Rimbaud, Baudelaire, Artaud, Thoureau, Kerouac, Bukowski, entre dezenas de outros. E esta maravilhosa capacidade da juventude de cultuar aqueles que descarrilham dos trilhos do sistema transforma artistas marginalizados em clássicos. Desde que morreu, em 1994, a obra de Heinrich Karl Bukowski, dito Charles Bukowski, tem corrido o mundo. O bêbado inconveniente capaz de performances desastrosas, completamente embriagado em frente às câmeras da TV, passou a ser respeitado.

Bukowski não perdoa, não alivia. É sempre violento, irreverente, não tem nenhuma ilusão. Ele é uma alternativa ao mundo idealizado que virou moda depois da vitória final da civilização do dinheiro e da globalização. Bukowski escancara o lado sombrio da nossa sociedade. Ele levanta o tapete e mostra a sujeira. É a voz dos desvalidos, dos perdedores, dos desempregados, dos doentes, dos falidos, dos feios, das putas, dos bêbados. Não tem nenhum charme, mas a violência que jorra das suas páginas é tão verdadeira que não tem como ficar indiferente.

É linda e mobilizadora a leitura Tom O’Bedlam. Vejam, abaixo:

“então você quer ser um escritor

se não vir estourando de você
apesar de tudo,
não escreva.
a menos que isso saia de você sem permissão
do seu coração, da sua mente, e da sua boca
e seu âmago,
não escreva.
se você tem que se sentar por horas
olhando para a tela do computador
ou debruçado sobre o sua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não escreva.
se você está fazendo isso por dinheiro ou
fama,
não escreva.
se você está fazendo isso porque quer
mulheres em sua cama,
não escreva.
se você tem que sentar lá e
reescrever de novo e de novo,
não escreva.
se é duro trabalhar pensando em como escrever,
não escreva.
se você está tentando escrever como alguém
como outro,
desista.

se você tem que esperar para que isso saia como um rugido
de você,
então espere pacientemente.
se esse rugido nunca sair,
faça outra coisa.

se você, primeiro, tem que ler a sua esposa
ou sua namorada ou seu namorado
ou seus pais ou a quem quer que seja,
você não está pronto.

não seja como tantos escritores,
não seja como tantos milhares de
pessoas que se dizem escritores,
não seja maçante e chato e
pretensioso, não seja consumido pelo
amor próprio.
as bibliotecas do mundo têm
bocejado a
dormir
sobre o seu tipo.
não seja mais um.
não escreva.
a não ser que saia da
sua alma como um foguete,
a não ser que isso faça-o
levar à loucura ou
suicídio ou assassinato,
não escreva.
a menos que o Sol dentro de você
queima seu âmago,
não escreva.

quando for realmente o tempo,
e se você for escolhido,
ele irá fazê-lo por
si e vai continuar a fazê-lo
até que você morra ou ele morre em você.

não há outra maneira.

e nunca houve.”

(Charles Bukowski)

O Poema possibilita um atravessamento de emoções com este trecho de Kerouac:

‎[…] porque, para mim, pessoas que me interessam, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns mas queimam, queimam, queimam, como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações em cujo centro fervilhante se pode ver um brilho intenso. (Jack Kerouac)

A foto é da Raining.fm, que eu super indico pra um relax com muita chuva.

Sobre A Vida Que Passa Sobre A Vida Que Passa

¿Qué haría yo sin lo absurdo y lo fugaz?
(Frida Kahlo)

Foto de Charles Bergquist

LEMBRA? LEMBRA?

“Lembra o tempo
em que você sentia

e sentir
era a forma
mais sábia de saber

E você nem sabia?”

Poema de Alice Ruiz
Foto de Paolo Collona

Sobre Incertezas Sobre Incertezas

“ausência e peso líquido” por Paulo Scott:

Onde guardar o rumo lógico dos dias da semana? Onde guardar o senso de preservação e o senso da dúvida? Onde guardar as viagens com as quais não se ganha nada e o amor brigando com o silêncio? Não falar em amor se você quiser o status de artista que entende uma barbaridade de amor. Onde guardar os amigos que vão se embrutecendo ou virando gincana? Onde guardar os que te condenam e as enfermidades que foram superadas? Onde guardar os trajetos mais práticos para se chegar ao posto do correio da voluntários da pátria e ao banco do brasil enquanto se arrasta dois carrinhos de supermercado e a familiaridade das outras tarefas urgentes? Fugir das pessoas por causa desse receio compulsório de lhes trazer o mal. Essa ilha crescendo nos convites. Onde guardar os momentos em que apenas se é condenavelmente generoso e atencioso (generosidade não se deve mostrar)? Onde guardar essa idade e a carcaça de seus pássaros mortos? Escrever sobre a intimidade justo por não entendê-la, na verdade escrever sobre posições vertebrais, sobre a mecânica das naturalidades gaúchas e respirar subtraindo talvez e portanto; no fundo: essa dívida, essa companhia que há mais de trinta e cinco anos me tira os domingos e que hoje parece mais claro é parte importante dos procedimentos de alegria quando se quer voltar no tempo que tanto pedi e não herdei.

Do sanduíche de anzóis

Foto de Robert e Shana ParkeHarrison.

Indie Game: The Movie – Jogo Da Vida Indie Game: The Movie – Jogo Da Vida

“Indie Game: The Movie” é um documentário sobre desenvolvedores de games independentes, dirigido pelos canadenses James Swirsky e Lisanne Pajot. O filme relata o desenvolvimento dos aclamados jogos “SuperMeat Boy”, “Fez” e “Braid”, acompanhando a trajetória de seus idealizadores.

Minha expectativa é que o documentário abordasse o embate dos “jogos de grandes empresas, que precisam ser totalmente lapidados e formatados para agradar à maior audiência possível, e os jogos independentes, que são feitos a partir de conceitos muito particulares e refletem a visão de seus criadores”. De fato, estes são os primeiros 20 minutos do filme.

No entanto, seu tema vai muito além das nuances da cena independente, versus o universo blockbuster. É um filme que expõe, com competência e sensibilidade, alguns sintomas culturais contemporâneos que contemplam um cenário de fragmentação e isolamento social.

Impossível não se envolver com essa tessitura de vidas; uma metanarrativa, em que os quatro protagonistas se debruçam sobre si mesmos, e inventam e reinventam seus jogos da mesma forma que escrevem sua estória. ♥

Um filme eletrizante que fala de desdobramentos da vida: insegurança; vulnerabilidade; desfiliação; irrelevância social, tanto no campo cívico, quanto político; falta de reconhecimento de si mesmo e a consequente dificuldade de projeção para o futuro.

A excelente trilha sonora de Jim Guthrie constrói um crescente envolvimento emocional, atingindo um intercruzamento empático de sentimentos com a história de superação destes quatro designers em busca de seus sonhos. Estão presentes Edmund McMillen e Tommy Refenes (Super Meat Boy ), Phil Fish (Fez) e Jonathan Blow (Braid).

Outro aspecto bacana do processo, é que o filme também foi produzido de maneira independente, financiado através da plataforma de crowdfunding kickstarter e distribuído apenas digitalmente.

O “Indie Game: The Movie” pode ser comprado por US$ 9,99, tem legendas em português e pode ser baixado ou visto por streaming, no computador, videogames ou dispositivos móveis. Veja o trailer legendado:

Via Update and Die