Passageiro do fim do dia Passageiro do fim do dia

“Conforta acreditar que o passado é um inimigo que derrotamos de uma vez para sempre, que cada minuto é uma formiga que esmagamos com o pé em nosso avanço implacável. Ao contrário, minha sensação é de que o passado respira todo o tempo às minhas costas, anda sempre no meu encalço e, se acelero o passo, ele também aumenta o ritmo de sua marcha, disposto a me tragar de uma vez na sua corrente.”

Leia o artigo de Ricardo Russano no amálgama, sobre o autor deste texto lindo – O passado vivo: ensaio sobre Rubens Figueiredo.

Imagem: Rookie (Photos by Eleanor; collages by Ben Giles).

“unless it comes unasked out of your heart and your mind and your mouth and your gut, don’t do it.” “unless it comes unasked out of your heart and your mind and your mouth and your gut, don’t do it.”

Reencontrar Bukowski é sempre oscilar visceralmente, entre a tristeza e a alegria, né?

Na minhas divagações sem rumo pela Web, achei essa breve e perspicaz análise, feita por Ivan Pinheiro Machado, sobre este poeta que ultrapassa as fronteiras de seu tempo:

Bukowski conquistou a admiração dos jovens de várias gerações; daqueles que são jovens há muito tempo e daqueles que são jovens recentemente. Esta permanência no coração dos leitores se deve a uma obra descarnada, sobre a qual paira a irresistível aura de transgressão. Há malucos que se tornam santos com o passar do tempo como Van Gogh, Rimbaud, Baudelaire, Artaud, Thoureau, Kerouac, Bukowski, entre dezenas de outros. E esta maravilhosa capacidade da juventude de cultuar aqueles que descarrilham dos trilhos do sistema transforma artistas marginalizados em clássicos. Desde que morreu, em 1994, a obra de Heinrich Karl Bukowski, dito Charles Bukowski, tem corrido o mundo. O bêbado inconveniente capaz de performances desastrosas, completamente embriagado em frente às câmeras da TV, passou a ser respeitado.

Bukowski não perdoa, não alivia. É sempre violento, irreverente, não tem nenhuma ilusão. Ele é uma alternativa ao mundo idealizado que virou moda depois da vitória final da civilização do dinheiro e da globalização. Bukowski escancara o lado sombrio da nossa sociedade. Ele levanta o tapete e mostra a sujeira. É a voz dos desvalidos, dos perdedores, dos desempregados, dos doentes, dos falidos, dos feios, das putas, dos bêbados. Não tem nenhum charme, mas a violência que jorra das suas páginas é tão verdadeira que não tem como ficar indiferente.

É linda e mobilizadora a leitura Tom O’Bedlam. Vejam, abaixo:

“então você quer ser um escritor

se não vir estourando de você
apesar de tudo,
não escreva.
a menos que isso saia de você sem permissão
do seu coração, da sua mente, e da sua boca
e seu âmago,
não escreva.
se você tem que se sentar por horas
olhando para a tela do computador
ou debruçado sobre o sua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não escreva.
se você está fazendo isso por dinheiro ou
fama,
não escreva.
se você está fazendo isso porque quer
mulheres em sua cama,
não escreva.
se você tem que sentar lá e
reescrever de novo e de novo,
não escreva.
se é duro trabalhar pensando em como escrever,
não escreva.
se você está tentando escrever como alguém
como outro,
desista.

se você tem que esperar para que isso saia como um rugido
de você,
então espere pacientemente.
se esse rugido nunca sair,
faça outra coisa.

se você, primeiro, tem que ler a sua esposa
ou sua namorada ou seu namorado
ou seus pais ou a quem quer que seja,
você não está pronto.

não seja como tantos escritores,
não seja como tantos milhares de
pessoas que se dizem escritores,
não seja maçante e chato e
pretensioso, não seja consumido pelo
amor próprio.
as bibliotecas do mundo têm
bocejado a
dormir
sobre o seu tipo.
não seja mais um.
não escreva.
a não ser que saia da
sua alma como um foguete,
a não ser que isso faça-o
levar à loucura ou
suicídio ou assassinato,
não escreva.
a menos que o Sol dentro de você
queima seu âmago,
não escreva.

quando for realmente o tempo,
e se você for escolhido,
ele irá fazê-lo por
si e vai continuar a fazê-lo
até que você morra ou ele morre em você.

não há outra maneira.

e nunca houve.”

(Charles Bukowski)

O Poema possibilita um atravessamento de emoções com este trecho de Kerouac:

‎[…] porque, para mim, pessoas que me interessam, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns mas queimam, queimam, queimam, como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações em cujo centro fervilhante se pode ver um brilho intenso. (Jack Kerouac)

A foto é da Raining.fm, que eu super indico pra um relax com muita chuva.

LEMBRA? LEMBRA?

“Lembra o tempo
em que você sentia

e sentir
era a forma
mais sábia de saber

E você nem sabia?”

Poema de Alice Ruiz
Foto de Paolo Collona

Sobre Incertezas Sobre Incertezas

“ausência e peso líquido” por Paulo Scott:

Onde guardar o rumo lógico dos dias da semana? Onde guardar o senso de preservação e o senso da dúvida? Onde guardar as viagens com as quais não se ganha nada e o amor brigando com o silêncio? Não falar em amor se você quiser o status de artista que entende uma barbaridade de amor. Onde guardar os amigos que vão se embrutecendo ou virando gincana? Onde guardar os que te condenam e as enfermidades que foram superadas? Onde guardar os trajetos mais práticos para se chegar ao posto do correio da voluntários da pátria e ao banco do brasil enquanto se arrasta dois carrinhos de supermercado e a familiaridade das outras tarefas urgentes? Fugir das pessoas por causa desse receio compulsório de lhes trazer o mal. Essa ilha crescendo nos convites. Onde guardar os momentos em que apenas se é condenavelmente generoso e atencioso (generosidade não se deve mostrar)? Onde guardar essa idade e a carcaça de seus pássaros mortos? Escrever sobre a intimidade justo por não entendê-la, na verdade escrever sobre posições vertebrais, sobre a mecânica das naturalidades gaúchas e respirar subtraindo talvez e portanto; no fundo: essa dívida, essa companhia que há mais de trinta e cinco anos me tira os domingos e que hoje parece mais claro é parte importante dos procedimentos de alegria quando se quer voltar no tempo que tanto pedi e não herdei.

Do sanduíche de anzóis

Foto de Robert e Shana ParkeHarrison.

“O Que De Tudo Isso Ficará?” “O Que De Tudo Isso Ficará?”

Ontem reencontrei este vídeo e, mais uma vez, me embriaguei nele. ♥

No texto incomum de Paulo Scott, o duelo das palavras. Uma poética fraturada que não faz concessões. Poemas que dilaceram. Instigam. Transgridem. A timidez do monstro é a poesia de um tempo que exige um novo verbo para se dizer” (Fabrício Carpinejar).

Abaixo, o texto de Paulo Scott, por Maria Rezende:

PS acustico: Aqui.

eh tempo de látex e onipotência eh tempo de látex e onipotência

Salgado Maranhão, afirma: a poesia não faz como a literatura de autoajuda, que aponta caminhos. Ela não dá receitas, dá autonomia. Não nos manda imitar o outro, quer que descubramos nosso próprio mapa.

Leia, abaixo, seu poema, Deslimites 10 (taxí blues) ♥:

eu sou o que mataram
e não morreu,
o que dança sobre os cactos
e a pedra bruta
– eu sou a luta.
o que há sido entregue aos urubus
e de blues
em
blues
endominga as quartas-feiras.
– eu sou a luz
sob a sujeira.

(noite que adentra a noite e encerra
os séculos,
farrapos das minhas etnias,
artérias inundadas de arquétipo)

eu sou ferro. eu sou a forra.

e fogo milenar desta caldeira
elevo meu imenso pau de ébano
obelisco às estrelas.

eh tempo em deslimite e desenlace!
eh tempo de látex e onipotência!

A foto é de Steve McCurry , no meu Tumblr.

John Cooper Clarke – Mais do que um poeta John Cooper Clarke – Mais do que um poeta

John Cooper Clarke, chamado o poeta do punk, é uma figura fascinante, que foi um clássico na cena de Manchester a partir de 1977. Suas apresentações eram construções elaboradas numa mistura de performance, poesia, comedia e rock and roll. Estas atuações aconteciam na abertura de bandas punk e pós-punk, como Joy Division, Sex Pistols,The Fall, Buzzcocks e Siouxsie and the Banshees.

Gravou vários discos, os mais conhecidos entre 1978 e 1982, e viveu relações turbulentas nos anos 80: uma com a cantora Nico e a outra com a heroína . First its fun, then it isn’t, then its hell. I can’t really think of anything to add to that story. It seems to be the time worn trajectory.”

Ao ouvir John Cooper Clarke, apreende-se que ele usa as questões triviais da existência cotidiana – neste caso, seu vício em heroína – como uma história alegórica visando a uma compreensão mais profunda da condição humana:“It’s a tedious and narrow life”. Um dos seus poemas foram incluídos no single “Fluorescent Adolescent” pelos caras do Arctic Monkeys.

John Cooper Clarke, “Ou você ama ou nunca ouviu falar dele”. Bem, isso é de acordo com o documentário BBC4 chamado “Evidently… John Cooper Clarke”.

Abraçados ao Invisível Abraçados ao Invisível

Mais um dos poemas lindos do Everton Behenck.

Overdoses de uma sensibilidade escancarada, numa alquimia de experiências emocionais, de significados que não se esgotam e permitem novas reinterpretações.